sexta-feira, 25 de julho de 2014

Quando a gente desenhava o mundo



              Quando a gente desenhava o mundo nas aulas de geografia, pintando os mapas com canetinhas coloridas tudo parecia ter outra dimensão. Dividíamos a América do Sul, cortando o Chile em pedaços. A Argentina ganhava um naco a mais, compensando que errávamos o traçado do Paraguai e da Bolívia invadindo seu território. O Suriname ficava perdido no meio das Guianas e a Venezuela, (bem antes dos planos mirabolantes do falecido Hugo Chávez) às vezes tomava até Trinidad e Tobago adentrando o mar e quase sempre, roubava-se partes da Colômbia. Invertíamos a localização de Honduras com Nicarágua, aumentávamos o território Canadense em cima dos Estados Unidos e esquecíamo-nos de marcar a divisa com o Alasca.
              Na Ásia, da Turquia a exótica Índia, tudo parecia pertencer a outro planeta, com exceção da hoje Federação Russa que ainda se chamava (e era ultra poderosa) União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Misturávamos acidentalmente Filipinas com Indonésia. Enrolávamo-nos completamente na Oceania, tirando Austrália e Nova Zelândia, tudo era Polinésia. Contudo aumentávamos propositalmente o Japão, porque a terra dos lendários samurais não poderia ser tão pequenininha. No continente Europeu os laços de muitos de nossos ancestrais tornavam tudo mais fácil. Sempre tínhamos em sala de aula descendentes de italianos, poloneses, espanhóis, suecos ou alemães. Já da Antártida a folha em branco aludia ao gelo. Da mãe África não raro a turma mostrava cisão momentânea. Alguns dos nossos provinham de lares cujos pais infelizmente eram preconceituosos e não raro incentivam seus filhos a continuarem a sê-lo. Madagascar não era tão popular antes dos filmes da Disney. Do Marrocos a África do Sul a dificuldade não consistia em decorar a pronúncia de nomes, mas a divisão de territórios permanentemente em guerras tribais, geralmente impulsionadas por grupos europeus inescrupulosos! Todavia estávamos no (agora) Ensino Fundamental e a professora (que ainda não era chamada de Tia) relevava nossos erros carinhosamente, apoiando-nos a corrigir e reiniciar com mais entusiasmo.
               Nem vou me estender aquém, especificando o problema do salário defasado do Professor ou transporte escolar para as crianças do campo, etc e tal. Meu objetivo nesse artigo é tecer olhar de admiração (saudosismo e até pontinha de inveja), mesclado à satisfação de acompanhar a evolução do estudo da geografia. Concorde comigo: hoje é super fantástico viajar pelo mapa mundi sem sair do lugar, com a sensação de quase estar presente fisicamente. E nem vou ficar atrelada ao Google Earth, disponível para usuários domésticos, programa desenvolvido pela empresa Keyhole, Inc. intitulado Earth Viewer, comprado pela Google em 2004, que visualiza imagens de diversos satélites (e da NASA), mostrando-nos detalhadamente cidades, relevos, construções em 3D, até as galáxias no espaço. Refiro-me aos livros de história e geografia, aos programas de televisão, aos sites de pesquisas, as revistas e jornais que ao abordarem assuntos diversos, acrescentam dados estatísticos e geográficos multicoloridos.
              Assombra-nos a velocidade da informação, o cruzamento de dados das áreas diversas e as múltiplas possibilidades do professor poder desenvolver tudo isso em sala de aula. Então aquelas nossas cartolinas amassadas, as canetas que respingavam tinta no uniforme, os livros de cores esmaecidas e o sofrível mapa da parede ao lado do quadro negro, que continha alguns erros similares aos que cometíamos inocentemente ficaram para trás. Quando nossa geração desenhava o mundo, a verdadeira dimensão do planeta infelizmente ainda era restrita. Hoje se descortina a extensão do mundo fascinantemente diante dos nossos olhos e num piscar de olhos!
Régis Mubarak

domingo, 20 de julho de 2014

Em nome de quem



             Lawrence Wright é colunista e repórter da revista New Yorker e pesquisador do Centro de Direito e Segurança da Universidade de Nova York. Vencedor de inúmeros prêmios em reportagens fascinantes é autor do Livro “A prisão da Fé,” que li e reli sofrendo a cada página, inacreditavelmente suando frio embaixo dos cobertores em meio a esse inverno tenebroso, quase digamos assim... um típico inverno islândes! Sofri para entender (jamais aceitar, não confunda cara pálida), como pessoas extremamente inteligentes deixam-se convencer e serem usadas (e abusadas) em nome seja lá de quem for. Recomendo o livro, sem deixar de confessar que não sabia da existência desse obstinado escritor norte americano nascido no ano de 1947. (Buscando dados sobre sua carreira eis o site: http://www.lawrencewright.com/. Também acabei descobrindo que já escreveu roteiros para cinema: http://en.wikipedia.org/wiki/Lawrence_Wright. Fiquem a vontade, para ir até esses endereços e depois seguirem em frente.)

              Lawrence Wright como disse a resenha do Jornal Washington Post: (...) “...trata a Cientologia, sua história, teologia e hierarquia, com lucidez e coragem investigativa.O resultado é a prova de que a verdade pode ser mais estranha que a ficção científica.” Puxando “a orelhinha do próprio livro” encontramos que: (...) “...o resultado é uma reportagem corajosa sobre a seita e seus líderes, mas também uma reflexão profunda sobre a natureza da Fé.” E reproduzindo outra resenha a do The Los Angeles Times: (...) “...Para quem gosta de escândalos das celebridades de Hollywood, os capítulos sobre Tom Cruise e John Travolta são um prato cheio.” Eu acrescentaria: para os fãs é deveras angustiante. (Entretanto em nenhum momento Wright irá denegrir a imagem dessas celebridades, bem como das demais pessoas envolvidas em histórias assombrosas.)
              Ao longo das quase 600 páginas, além das notas autoexplicativas, links complementares, dezenas de entrevistas, com membros e ex-membros da Cientologia, ele imergiu em exaustivas pesquisas e minuciosamente revisou processos judiciais dos mais variados em diversos países, para esclarecer, explicitar e tentar até dissertar sobre o poder da Cientologia. Então você já captou amiguinho a essência do conteúdo: de que não se trata de um livro para difamar ninguém ou “jogar” como estamos acostumados “mais lama no ventilador” ou “respingar m...” para todos os lados. Ou nossos típicos casos nacionais e latino americanos tri conhecidos: “se eu cair levo todo mundo comigo!” Lawrence Wright escreveu “quase” um livro de história, didático, fantástico e surpreendente em cada página recheada e fartamente documentada com centenas de informações quase inacreditáveis. (E olha, que eu nem me assusto assim tão fácil!)
              (...) “...A Cientologia certamente está entre as religiões mais estigmatizadas do mundo em razão de sua extravagante cosmologia, de seu comportamento vingativo contra críticos e desertores e do dano infligido as famílias que foram separadas pela política de “desconexão” da igreja, (a exigência de que seus membros se isolem de pessoas que se põem no caminho do ansiado progresso espiritual),” afirma o autor para complementar adiante: (...) “...Passei boa parte da minha carreira examinando os efeitos de crenças religiosas sobre a vida das pessoas. Historicamente, essa é uma influência muito mais profunda sobre a sociedade e os indivíduos que a política, matéria-prima de tanto jornalismo.” Você pode buscar aleatoriamente palavras como Sea Org, David Miscavige, Xenu, Clear Mind, L.Ron Hubbard, e-meters, dianética, Paul Haggis que entenderá partes do que estou redigindo aqui ou ler esse obra magnífica, que nos leva ao fundo de um poço escuro de solidão, mentiras, abusos. Onde se aprisionam pessoas ingênuas ou desesperadas ou que se achavam tão inteligentes e foram ludibriadas em nome da Fé numa prisão, vendendo ou se deixando arrancar pedaços de suas almas!

Régis Mubarak