sexta-feira, 31 de maio de 2013

Instantes Piscantes




             No filme Vanilla Sky (EUA 2000), cujo original espanhol se chama “Abra los Ojos” de Alejandro Amenábar, o personagem de Tom Cruise numa vacilada sem precedentes, muda o destino de muitas pessoas, apartir de uma decisão errada num ponto sem retorno. O filme delirante em vários aspectos apresenta final aterrador. A vacilada, o minuto de bobeira, aquele “x” da questão, o passo em falso que modifica tudo em segundos, é a virada dessa história. E de milhares de outras, que não foram roteirizadas para o cinema, mas poderiam ser. Quando a gente cresce (e amadurece), situações cada vez mais complexas, nos forçam assumir pesadas responsabilidades por nós mesmos e pelos outros. E isso de certo modo, independente da profissão que exercemos, nos assusta. Talvez em virtude do preço que se paga, quando não fazemos escolhas sensatas. E nem me refiro ao estágio mais avançado: o drama de consciência ou contas abertas: débitos e créditos. Nossas possíveis reencarnações. Carmas e Dharmas. Enfim. Há um livro da escritora Lya Luft, intitulado “Perdas e Ganhos,” que deveria ser leitura obrigatória a todo indivíduo que atingisse a maioridade.

              No documentário “Quem somos nós” (EUA 2005), a atriz Marlee Matlin (que é deficiente auditiva) nos conduz a uma viagem (de múltiplas possibilidades) por dentro do cérebro (e pensamento) humano. Trata-se de um trabalho sobre física quântica, (não se assuste), explicando temas fascinantes, nos mínimos detalhes para nós, leigos no mundo das ciências. Claro que você pode ao invés de assisti-lo, comprar um exemplar da Super Interessante (que de fato é super interessante) ou da Scientific American nas bancas. Selecionar programas especiais do Discovery Channel ou dedicar duas horas do próximo final de semana, digitando perguntas no seu portal preferido na Internet e se sentir plenamente satisfeito, com o resultado alcançado. Ou não fazer nada disso. Afinal, o livre arbítrio de acesso ao conhecimento, é direito seu e assunto encerrado.

              Acontece, que as respostas às questões que mais nos intrigam (ou angustiam), estão dentro de nós. É uma busca profundamente solitária e individual. Um caminho difícil a ser trilhado. Uma jornada de autoconhecimento (e revelação) que começa com o 1º e decisivo passo: “O conhece-te a ti mesmo” do filósofo Sócrates, que nos foi ensinado lá na 7º série e não prestamos atenção, porque fazer aviãozinho de papel e colar goma no cabelo das meninas era muito mais excitante! Quando você percebe o universo de possibilidades existente a seu redor, momentos de extrema dificuldade passam a ter novo significado. Não é que você não vai mais vacilar. Se enganar. Ou cometer erros. O que muda depois de prestarmos atenção aquela luzinha interior – “um instante piscante” – por nós até aqui inexplorada; é que a quantidade de acertos, lentamente começa a suplantar as decisões equivocadas. Nossa insegurança. Nosso medo do desconhecido. E de nós mesmos. E sem precisarmos recorrer ao álcool, drogas ou qualquer ritual de bruxaria moderno, degustando cogumelos alucinógenos, infusão de ayahuasca ou incluindo a participação especial do sapo cururu!

              Nosso cérebro é mais poderoso do que se imagina. Nosso coração também. Interligando todas as forças, aquilo que para muitos parece sorte ou milagres, passa a ser a energia atômica (vital) de transformação e crescimento da nossa consciência, que já está interligada ao TODO. Nesse universo de possibilidades infinitas somos muitos e somos um só. Todos conectados. Porque nossa origem, e a dos minerais, animais e vegetais, provêm de uma única fonte da criação. E nossa vida começa a mudar seu próprio sentido, quando descobrimos definitivamente quem afinal de contas somos nós neste mundo...   
          

Régis Mubarak



quarta-feira, 29 de maio de 2013

Alma de Cachorro *



           O avanço tecnológico impele o homem a dar saltos ao invés de passos. Usufruindo de modernos meios de comunicação ficamos perto dos que estão longe. Num sentido inverno, nos tornamos ausentes, aos que estão bem ao nosso alcance. Não é um paradoxo. Nem questão filosófica ou problema insolúvel, a exigir-nos profundos estudos metafísicos. Trata-se apenas de um defeito em nosso comportamento.

              Observe seu cachorro de estimação, também poder ser o gato. Em casa, ele não lhe recebe eufórico, emitindo sinais de contentamento explícito? Abanando o rabo em demonstração de afeto; esperado uma massagem nas costas, um tapinha na cabeça, “um olá amigão” vindo do fundo do coração? Esqueça a cotação da bolsa de valores, a alta da gasolina, o péssimo atendimento da operadora de celular, um chefe tirano, um colega insano ou um vizinho reptiliano que bate à porta, intencionado a nos enredar em algum tipo de confusão. Seu amigão estará sempre ali... todo santo dia com aquele olhar pidão!

              Você acredita que cachorro tem alma? E que ela evolui? Amigos meus, de matizes budistas, hinduístas e kardecistas, foram fundo em questões desse tipo. Não seja sectário, em função da sua vertente religiosa; pense um pouco. Afinal “religião é religação com o TODO,” do qual andamos meio separados ultimamente. Ou você acha que quem fomenta as guerras, procede em nome de DEUS? Além do que; a questão também não é o tamanho da nossa Fé, medida ou escancarada aos berros em qualquer esquina, mas sim como nos comportamos em relação a essa Fé. Ações e boas ações efetivadas. Ideias brilhantes para salvar o mundo, ora... qualquer um pode ter qualquer dia da semana! Coragem, persistência, concretização é que são “os outros quinhentos.” Será que estamos realmente fazendo a nossa parte?

              A tecnologia melhorou e muito nosso ambiente de trabalho. Torná-la ferramenta escolar, também é indispensável. No encurtamento das distâncias, dispensam-se comentários. No entanto, nenhuma espécie de comunicação eletrônica, substituirá o bom e velho abraço, um sorriso acolhedor, um carinho sincero, um “Eu te amo.” É preciso tocar em quem está perto com o coração. Acreditar se o seu cachorro é ou não digno de uma alma evolutiva, na cadeia existencial dos seres, fica a seu critério. Mas eu e você possuímos uma. E evoluímos, ainda que às vezes façamos determinadas bobagens, que dá a falsa impressão de estarmos andando para trás! Se você sente dificuldades em externar seus sentimentos, comece rolando na grama com o “seu Totó.” Depois passe ao segundo estágio: sendo gentil com o próximo, desejando-lhe “um bom dia ou uma boa tarde,” verdadeiramente com essa intenção. Independente de o céu estar cinzento lá fora, há um monte de gente, esperando ansiosa, a sua vez na fila do carinho. E quanto aos nossos filhos, eles mereceriam atenção 24 horas ininterruptas; se fosse possível, como não é, leia historinhas, tome sorvete, jogue bola, aprenda a tocar violão e a cantar. Brinque até cansar cada ossinho do velho esqueleto multiplicando por dez os momentos felizes.

              Sinceramente... eu acredito que cachorro tem alma. E gato, papagaio, bicho-preguiça, golfinho e elefante também. É que eu estava pensando naquelas datas difíceis de conviver e fáceis em suscitar lembranças dos que se foram. Porque num dia qualquer da semana, um de nós pode não estar mais tão perto assim, daqueles que amamos. Acontece num piscar de olhos e aí amigo, não haverá Windows ou Linux, tecnologia GSM ou GPS a nosso alcance, e dizer “Eu te amo,” tornar-se-á praticamente impossível. É que sentir saudade é muito ruim. E quando deixamos pendências ou feridas abertas... a dor parece-nos insuportável!

Régis Mubarak *