terça-feira, 7 de abril de 2015

Compartilhar de verdade



                  Não serei intimista, pedante ou invasiva, nem vou forçar a barra fazendo confissões detalhistas a respeito dos meus dilemas existenciais. Se continuares lendo dessa linha em diante, já vou avisando que irei rabiscar algumas palavrinhas sobre coisas que me incomodam. Se não continuar, tranquilo... nossa amizade não vai se arrefecer nem se desfazer por conta disso. Assim como não lançarei uma maldição cigana até sua 7º geração, se você discordar dos meus achômetros, pitakos e ilusões!
              É sobre compartilhar de verdade. Sobre dividir experiências e emoções, sobre ser solidário sem segundas intenções. Sobre realmente estar disposto a ajudar outra pessoa: monetariamente, afetivamente, fraternalmente, através da força do pensamento ou do poder da oração e principalmente de ações concretas! É sobre saber se doar com intensidade sem buscar os holofotes, sem se achar melhor por isso ou aquilo, sem querer aplausos, medalhas e um troninho de ouro, à direita (ou à esquerda) do Criador dos Mundos. Não vou citar nenhum pensador filosófico, nem me apoiarei em nenhuma linha de correntes budista, hinduísta ou xamânica. (Não vou falar dos últimos materiais de pesquisas que recebi da minha galerinha do Canadá e lá do Japão sobre tecnologia e seres cósmicos, senão vai criar a falsa impressão de que fui completamente abduzida!) Não vou explicitar trechos bíblicos, nem defenderei mensagens espíritas, menos ainda farei comparação entre católicos, protestantes, judeus ou islâmicos. Enfim...
              Duas histórias com final devastador me incomodam (e dilaceram) nos últimos dias. Serei breve, sem ironia, sarcasmo ou amargura, porque vou pedir sua ajuda na conclusão do meu raciocínio. Primeiro: Porque aquela quantidade quase imensurável de habitantes da ainda simpática Três Passos, sabia, tinha presenciado ou já ouvido falar a cerca dos maus tratos do pequeno Bernardo, por parte dos dois psicopatas e não ajudou o garotinho a sair daquele inferno de vida? Porque na frente das câmeras de televisão todo mundo se emociona profundamente, como se o menino fosse ressuscitar depois de amanhã? Porque nas redes sociais, outra quantidade de pessoas de todos os cantos do país deixou seu recado, sua revolta, sua consternação, mas não denuncia casos similares que podem estar acontecendo bem debaixo dos seus narizes? Por quê? Por quê?
              Segundo: Porque somente depois da tragédia da queda do Airbus da Germanwings nos Alpes Franceses, dezenas de pessoas (incluindo autoridades médicas) vieram a público atestar que sabiam que o jovem Andreas Lubitz sofria de depressão e passava por graves oscilações neurológicas? Porque ninguém estendeu a mão e levou o rapaz a um tratamento efetivo ao invés de paliativo? Por que permitiram que ele continuasse atuando na profissão sem estar devidamente equilibrado? Por quê? Por quê?
              (Eu poderia lhes falar de alguns e-mails que recebi falando sobre teorias de conspiração do tipo: deixaram que tudo chegasse até esse patamar, inclusive permitindo que o jovem copiloto agisse livremente (e levasse toda a culpa sozinho) em meio a uma difícil crise pessoal, para numa tragédia sem precedentes forçar os países envolvidos (da nacionalidade das vítimas), a entrarem em guerra contra forças de outros países, mas vou poupar-lhes dos detalhes, em virtude de que até onde se sabe está descartada a hipótese de ato terrorista e tudo se tornaria sem precedentes, mais aterrador ainda.)
              Compartilhar de verdade é se colocar no lugar do outro e sentindo suas dores, suas dúvidas, suas angústias se esforçar para ajudar de verdade, sem querer algo em troca a não ser o reestabelecimento da sanidade, da saúde, da felicidade, da vontade de viver, da esperança, no sentido de sermos todos uma única espécie humana, uma espécie fraterna, interligada, conectada, uma espécie em processo de ascensão.  É buscar ajudar, buscar soluções, as respostas... antes que algo de muito ruim aconteça, e então não se possa mais voltar a compartilhar justamente da presença física de quem tanto amamos.

Régis Mubarak